23 maio 2011

Esquizofrenia política VI

A radicalidade do sistema político democrático português contemporâneo parece fundamentar-se em alguns princípios, que uma vez analisados, ajudam-nos a compreender o quão inócuos, e desprovidos de conteúdo teórico são, que justifiquem a práxis, isto é, a transformação saudável da teoria em prática, testada e percebida por todos. Mas vamos por ora falar daqueles fundamentos que achamos serem condição para percebermos porque razão chegamos a este estado, ao ponto de ser necessário pedir um resgate financeiro externo ao país...
Existe uma cultura muito própria que advoga que o português tem de fazer aquilo que vê, onde estiver em determinado momento. Percebe-se que o português colhe o exemplo dos políticos, que habilmente praticam a oratória do entretenimento. A representação quotidiana da tragédia portuguesa, que a cada novo dia, por um acto tresloucado, consegue mais adeptos, mais alienados, mais almas que apenas se limitam a sobreviver, como se o tempo presente fosse um tempo sem nada, isto é, um outro passado, onde não havia o que há no presente em que escrevemos estas linhas, e nem vale a pena nomear o que ora existe, pois é trabalho para um historiador experimentado e conhecedor do seu tempo.
Mas voltemos a texto, e aos fundamentos, sem deixar um aviso ao leitor, que por agora economizamos nas linhas que escrevemos para o não maçar na leitura. Existe um fundamento que justifica que o eleito possa governar o eleitor, aquele que sufraga. Todavia, trata-se de um fundamento sem sentido, na medida em que deixa ao eleitor o simples acto de sufragar, impedindo-o de exercer no dia-a-dia uma cidadania mais participativa e fiscalizadora, face ao eleito, que uma vez empossado na função, passa a designar-se de pequeno ditador, por achar subjectivamente que é capaz de trabalhar sozinho, e de que tudo o que diz, está conforme à divindade por ele nomeada e por ele oficializada... Parece que existe um ritual de mentira, de ilusão constante, que uma vez oficializado pelo poder parece querer tornar-se verdade...
À oratória do entretenimento adicionamos a falsa alternância política, e falsa porquê? Porque, o que mudam são as caras que vemos, não aqueles que deveriam realmente mudar, e que são as que efectivamente mandam, pois são elas que detêm as funções decisórias do aparelho de Estado, portanto, falar-se de alternância política é tão falso como dizer-se que a soma de um mais um são três...

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