16 abril 2012

Rafael Alberti

É PRECISO ESTAR CEGO

É preciso estar cego
ou ter nos olhos aparas de vidro,
cal viva,
areia a ferver,
para não ver a luz que brota em nossos actos,
que ilumina por dentro a nossa língua,
a nossa palavra diária.

É preciso querer morrer sem um sinal de glória e de alegria,
sem participação nos hinos futuros,
sem ficar na lembrança dos homens que hão-de julgar o passado
sombrio da terra.

É preciso querer já em vida ser passado,
obstáculo sangrento,
coisa morta,
seco olvido.

Rafael Alberti é simplesmente o poeta que eternizou os poetas Andaluzes, que mais tarde, em 1975, foram cantados/interpretados pelos Aguaviva.

Alberti fora lido pela primeira vez em 1998, e já nesse ano distante, elegemos o poema acima reproduzido como nosso, como aquele que mais nos identificávamos. A segunda e a terceira estrofe identificam inexoravelmente o sentido da vida ou falta de sentido da vida em alguns seres que mais parece terem existido apenas para fazer número, pois neles quase não se encontra nada de válido que valha a pena enumerar... Mas o poema diz mais, acrescenta mais, interroga mesmo sem a interrogação explicita, ao sugerir: É preciso querer morrer sem um sinal de glória e de alegria...; dito de um outro modo, é preciso querer ser nada, não ter nada que o mova, que o distinga, o enalteça e o eternize. É preciso querer já em vida ser passado... O se preferirmos, estar morto mesmo estando vivo. 

O poeta soube cantar os desencantados, os derrotados, os incapazes, os que deixam andar, os que preferem ver de longe e os que deixam que a mão de outros escreva a sua História...

A este estar cego, contrapomos, enaltecendo a coragem, a força e a determinação. A capacidade, a resiliência e a inteligência posta ao serviço da nova Central de Inteligência. Motor de um novo propósito de vivência...

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